terça-feira, 14 de abril de 2009

Eu - Modo de usar, por Martha Medeiros

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir,

não grite comigo que tenho o péssimo hábito de revidar,

acordo pela manhã com ótimo humor, mas permita que eu escove os dentes primeiro,

toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre a minha nocauteante beleza

tenha vida própria, me faça sentir saudades, conte umas coisas que me façam rir, mas não conte piadas, nem seja preconceituoso, não perca tempo cultivando esse tipo de herança dos seus pais, viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim, para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude,

eu saio em conta, você não gastará muito comigo,

acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa,

respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar,

e não me obedeça sempre, que eu também gosto de ser contrariada(então fique comigo quando eu chorar, combinado),

seja mais forte que eu e menos altruísta, não se vista tão bem, gosto de camisas pra fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço, reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelo, os pêlos no peito e um joelho esfolado,

você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idadeleia, escolha seus próprios livros, releia-osodeie a vida doméstica e os agitos noturnosseja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boateque isso é coisa de gente tristenão seja escravo da televisão, nem xiíta contranem escravo meu, nem filho meu, nem meu paiinvente um papel pra você que ainda não tenha sido preenchidoe o inverta às vezes, me enlouqueça uma vez por mêsmas me faça uma louca boa, uma louca que ache graçae tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, bocagoste de música e de sexo, goste de um esporte não muito banalnão invente de querer muitos filhos, me carregar pra missaapresentar sua família, isso a gente vê depois, se calhardeixe eu dirigir seu carro, aquele carro que você adora

26 fev
Jeanete
quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulherestenha amigos e digam muitas bobagens juntosnão me conte seus segredos, me faça massagem nas costasnão fume, beba, chore, eleja algumas contravenções, me raptese nada disso funcionarexperimente me amar- Do livro: “cartas extraviadas e outros poemas”, de Martha Medeiros -

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